Salvador dos media, aparelho do ano, ou mesmo da década, desilusão geek — o iPad marca a actualidade. Por quanto tempo, é uma incógnita. Este guia (in)completo do iPad não responde a essa questão e deixa outras em aberto. Em aberto, é como tudo ficou depois do tão esperado anúncio da Apple. Fechado, fechado, digo-lhe isto: o aparelho é a evolução natural e esperada, espécie de missing link entre os aparelhos de portabilidade da Apple (iPhone e iPod) e os seus computadores (MacBook, Air). O melhor dos dois mundos foi melhorado. Com algumas consequências fáceis de perceber.
A Terceira CoisaSteve Jobs situa o iPad num terceiro sector, a meio caminho entre os telefones espertos (smartphones) e os computadores portáteis. Nada novo, na verdade: nessa “terceira coisa” cabem também os outros aparelhos que de alguma forma competem com o iPad, sejam leitores de livros como o Kindle, sejam mais directamente os TabletPC — e a Microsoft está nessa jogada. Sejam, ainda, os protótipos e experiências que conhecemos dos dois lados, do lado da publicação, com os “papéis de plástico” que poderão substituir o papel, e do lado da informática com os usáveis (wearables, que ligam o digital ao físico, vejam o que quero dizer assistindo a isto).
Na verdade essa prateleira intermédia existe, inclusivé no grande comércio de informática. A meio caminho entre smartphones e os portáteis e laptops temos, hoje, os netpc. Compreende-se que a Apple não queira ver o iPad misturado no segmento conhecido pelas marcas brancas, sub-produtos, híbridos, low cost, funções pobres, microprocessadores ultrapassados. Mas não há como escamotear que o iPad encaixa muito bem nas características do segmento (ler mais abaixo). Que deverá subdividir-se.
CegueiraUm dia conheceremos os meandros da psique dos industriais dos media. O que os levou (leva) a acreditar que um aparelho que refinou a experiência de leitura na Internet constitui a salvação das suas receitas? Vão ter de inventar muito, ainda. E inventar o que já devia estar há muito na lista de prioridades: conteúdos de valor acrescentado em vez da indiferenciada pastilha de agência, multimedia com experiência de utilizador que deixe este de boca aberta em vez de um site arrumadinho, isto para começar.
ExpectativaSteve Jobs e a Apple fizeram o espectáculo do costume a criar expectativa em torno de um lançamento. O iPad foi chamado de aparelho do ano, quiçá da década — ANTES MESMO de estar lançado ou ser sequer conhecido rudimentarmente. Não é preciso gastar um cêntimo em publicidade. A trupe 2.0, de língua de fora, trata de enfiar o novo aparelho em tudo o que seja jornal, rádio, televisão, prime-time, sessões contínuas, trends do Twitter, especiais nos sites “da especialidade”, sms, telefone, batuque, sinais de fumo. A Apple consegue patamares de ubiquidade instantânea sem comparação nem com os piores registos das empresas mais odiadas, como foram nos seus tempos áureos a IBM ou a Microsoft (nestas coisas geek, como em tantas outras, o ódio move mais montanhas que o amor).
Leitor de mediaO iPad é um bom leitor de media, versátil, com ecran a cores e tamanho ajustado. Dizem os analistas que o Kindle é um pouco melhor para a função de ler livros. O iPad será um pouco inferior para a experiência da leitura continuada e repetida (mais de um livro por mês é a charneira), mas a versatilidade é muito superior e justifica a diferença de preço. A menos que a ambição do comprador seja exclusiva e peremptoriamente, ler livros.
MáquinaO iPad não é uma máquina por aí além em desempenho e está longe dos sonhos geek: não tem multitasking, isto é, não corre mais do que um processo de cada vez. Ouvir rádio enquanto lê? Mweew, esqueça. O processador foi optimizado para a experiência de leitura. A bateria dizem que se aguenta 10 horas (eu desconfio, as baterias são os consumos dos automóveis, os anúncios do fabricante nada têm a ver com a realidade de 99% dos clientes, mas temos de acreditar na certificação e nas condições ótimas, invejar o raio dos 1% que delas desfrutam e calar). É uma máquina eficiente para as tarefas a que se propõe — e isso é suficiente para mim.
NetpcConvém não esquecer que o iPad também concorre no segmento dos netpc, webpc, tabletpc — aquelas coisas um pouco menores que um portátil ou laptop, que servem para ler o correio, tuitar, fazer uns posts, escrever uns uourdes e emendar uns equeséis. Tipo Magalhães, topam? A Apple não tinha produto para esse segmento e passou a ter. É mais caro que os concorrentes? Sim, e também é estupidamente melhor e mais versátil que os concorrentes, mantendo as características essenciais do segmento: transportabilidade (peso + dimensões), facilidade de uso, simplicidade.
A entrada da Apple virá modernizar o segmento dos aparelhos intermédios, provavelmente dividindo-o em dois tipos: os low cost puros, máquinas sem outras pretensões que as de computador pessoal alternativo, e os multifunções, um pouco mais caros, mas com as características do início do segmento, da transportabilidade à alternativa à informática de grande porte.
Preço!Sejamos francos e directos: a maior inovação, também porque a mais inesperada, do último produto da Apple é o preço! Uma máquina destas por 499 dólares (16 GB, sem 3G) a 829 dólares (com 64 GB e 3G) é um preço insanamente barato. O iPhone é mais caro (comprado livre de contrato).
Esta inflexão na política da Apple tem uma razão estratégica. Cria dificuldades acrescidas à concorrência. Evita que se distancie do Kindle (259 dólares) sem retorno. Facilita a velocidade de implantação (o iPod demorou 2 anos, um desperdício com custos nas indecisões). Torna-o hipótese no mercado dos netpc e alternativa natural nos portáteis de entrada. Sobrecarrega menos os fãs da marca, que hesitarão na compra de um aparelho que considerarão supérfluo mais depressa que as pessoas ainda sem Apple experience.
Portátil de viagemO MacBook pesa um bom bocado, quando em viagem. Mas o iPhone é escasso para trabalhar um par de horas entre reuniões ou passeios. Serve para as urgências do correio e das redes sociais, serve para ler as gordas. O iPad é o sonho do viajante conectado — acreditem-me. Passar os olhos nos jornais e blogs no aeroporto, jogar ou ver um filme na viagem, bater uma carta e dar dois dedos de trela no Twitter, ler um romance antes de dormir e tomar notas durante a reunião do dia seguinte, com um aparelho que pesa uma fracção do portátil, custa menos de metade e se opera com os dedos naquele maravilhoso ecran que é ainda melhor que os do iPod/iPhone. Só por isto, estou comprador.
SalvaçãoA indústria dos media salivava há umas boas semanas; o iQualquerCoisa viria tirar os lucros dela da espiral negativa, terminar com o pesadelo da Internet e fazer-nos regressar magicamente aos “bons, velhos tempos” em que se vendia o mesmo papel duas vezes, a montante e a jusante. Como disse ao Diário Económico, este estado de ansiedade diz mais sobre a indústria do que sobre o iPad — qualquer iPad. Uma indústria que se tem sistematicamente retirado do caminho do progresso dos seus dois mercados clientes (anunciantes e consumidores), deposita as esperanças de sobrevivência num aparelho improvável e desconhecido, fabricado por uma empresa que antes lhe roubou, calmamente, a maior fatia dos fiéis e ninguém acha isto irreal.
Torniquete
Uma das razões que levou os media a esperarem pela iSalvação foi o torniquete da Apple: a loja iTunes. Os torniquetes são meios eficazes, e raros, para cobrar em ambientes de abundância. Mas não há torniquetes grátis e, a menos que nós próprios os construamos, são caros, às vezes muito caros. A política da Apple para os produtores de conteúdos vai condicionar fortemente (foi a palavra mais macia que encontrei) a disposição dos jornais e televisões para terem “edições iPad”.
Dito isto: mesmo que se torne num sucesso, o que está longe por enquanto de suceder, o iPad não conseguirá criará uma barreira suficientemente grande para recriar um ambiente de escassez ou muros suficientemente altos para reter as audiências. Até porque o aparelho se esforça por garantir o consumo da web como a conhecemos: páginas HTML, hipertexto, multimedia, gratuitidade — e intensa liberdade. Pelo que a indústria dos media fará melhor abandonar a ideia da iSalvação e concentrar-se em procurar a escassez através da qualidade ou da experiência irrepetível.
O Pedro Doria faz, no Estadão, uma interessante análise e compara a relação iPod/música versus iPad/jornais. Mas esquece duas diferenças fundamentais, talvez porque falou antes de conhecer as características do aparelho.
A primeira é que, ao contrário da música, a informação não é pirateada na web: é disponibilizada gratuitamente, ou a baixíssimo custo, e distribuída de uma forma imbatível, pelos nossos próprios amigos ou próximos, poara não falar das sofisticadíssimas tecnologias de pesquisa e de distribuição. Baixar uma música ilegal tem de facto algum custo em tempo e esforço, além de risco e de qualidade insuficiente ao nível das capas (exemplo do Pedro), mas ler uma informação na web não tem nada disso: ela até já vem ter connosco, separada, seleccionada e formatada ao nosso perfil, além de que não comporta risco legal.
A segunda é que, ao contrário do iPod e mesmo do Kindle, o iPad não separa o utilizador da Internet. O iPad continua a ser um computador ligado à Internet.
VersatilidadeO iPad até de moldura digital serve! A Apple tacteia diversas funcionalidades do ambiente doméstico, na expectativa de encaixar o aparelho, que é realmente versátil. A versatilidade pode ser um trunfo. Ou não. É como os melões.
Vídeo do Ipad